Domingo, 07 de Julho de 2013

 

 

1. No “Diário de Notícias”, um dos poucos homens que na Direita em Portugal diz o que pensa, fundamenta, e não deriva em conceitos “mais ou menos” simpáticos, obscuros, ou contraditórios veio dizer que não há ideologia, há vazio. É um facto. Jaime Nogueira Pinto vem dizer que não há “independência nacional”, e que à excepção do discurso “retórico do PCP e do Bloco de Esquerda, apesar de parado no tempo, não se consegue saber o que é que os outros partidos pensam”.

 

2. Não é só em Portugal. Após a queda do muro, muitos adivinharam a queda das ideologias políticas, reduzindo-se tudo a um “bocadito” mais de Estado numas áreas, menos noutras, e assim “mais ou menos”. O socialismo democrático é social-democracia, a democracia social é socialismo democrático ou liberalismo social. Na esquerda, Zizek chamou a atenção a este “Deserto” do Real, no contexto pós-11 de Setembro, onde a discussão pública é digerida por ilusão, imagem, expressão dissimulada, chegando a ironizar: “com a esquerda como é, para que é preciso de direita?”.

 

3. Obviamente, no jogo da indeterminação, da dissimulação, todo o bicho careta é competente. Os inábeis perguntam “por quem” descurando “o quê”. Basta ao dito bicho careta recordar a infância, o namoro ou a sedução ocasional, terrenos próprios da mentira ou da meia-verdade, para se tornar em tiranete profissional. Se não sabe o que é o Estado, que funções deve ter, que dinâmica deve ser dada ao dinheiro, que razão de alianças com o exterior a Nação deve manter, não interessa!, pois o que interessa é a comichão, e o coçar da ganga, a trica doméstica, e o fom-fom-fom diário. As passerelles semanais, os briefingues diários, a paspalhada oferecida.

 

4. O que se assistiu na última semana foi pura e simplesmente brincadeira política. Garotada.

5. Um ministro sai (para minha total surpresa, pois era o único que tinha noção da destruição necessária que tem de ser feita), e chama de incompetente ao primeiro-ministro (com razão, os “jotas” têm limites, a começar pelo cabelo), como se já não fosse grave… o espadachim-mor resolve dar estucada que pelos visto não é final.  Ora, num tempo a crédito, de ilusória abundância, em que a populaça se distrai com o “ter” do vizinho, e brinca aos snob´s (explicação: na sociedade britânica do séc. XIX escrevia-se que determinado burguês era s.nob, sem nobreza, para se distinguir), isto passava e até era comum.

6. Ora, impõe-se dizer que a tarefa da governação é coisa séria, seja na paróquia, seja no País. Se como no passado, qualquer um com um cartão ou um fato domingueiro tem acesso ao poder, sem perceber nada de Política (sem saber como realiza o bem comum da comunidade territorialmente definida, porque não tem o método dado pela ideologia na acepção de “ética pública”), e ascende, como muitos ascenderam, como meteoritos, ao “Kratós”, agora não é assim, nem pode ser assim.

 

7. Em concreto, tem Paulo Portas capacidade de trabalhar de forma a gerar uma arquitectura em que o Estado é reduzido (reforma do Estado porque insustentável)? Que provas de saber tem o mesmo dado sobre Educação, ou sobre Segurança Social? Viram o seu trabalho de casa? Sim, aquele que lhe foi atribuído em Fevereiro…viram-no? Como pode um Ministro das Finanças trabalhar se o Governo não dá como adquiridas as tarefas que são intocáveis, como sempre foram, e as tarefas que se impõe reduzir, ou até mesmo extinguir? Sabem o que se passou em Alcobaça? Que autonomia técnica tem a nova Ministra das Finanças? O Senhor Primeiro-Ministro fica tão só com a tarefa da Cultura? Reduz-se o problema ao planeamento orgânico do Governo? Subir o salário mínimo e baixar os impostos, mantendo a despesa pública, ao arrepio da aritmética, é a solução atenta a temporalidade das metas acordadas? O devedor saberá urrar junto do credor?

 

8. Estas questões são respondidas com constatações e valorações. É constatação que Portas não é economista e muito menos ideólogo (às segundas parece ser conservador, e à quinta, demo-cristão…). É valoração que há necessidade de eliminar atributos do Estado que a maioria (cinzenta, do “centro”, vazio) tem por adquiridos. Tal só pode ser feito com gente com profundidade, distraído ao jogo, punhos de renda e à forma, e com certeza de palavra.

9. A convocação de eleições impõe-se. Impõe-se para a ganga ser posta no vestiário de fim-de-semana, nem que se perca eleições, nem que ande de vespa ou de táxi!

10. Atenta a sociedade civil portuguesa, ainda desatenta na emergência em que nos encontramos, em que só não se manifesta porque é tempo de praia, é tempo de mudar. Mudar a ganga, porque o que tem de ser feito, é para ser feito, independentemente de A, B, ou C. A Sociedade Civil tem de ser responsabilizada PELO QUE elege.

11. A bola está no campo da gente PSD que pouco se manifesta, que covardemente não toma posição quando os tempos são de escassez. O Senhor Presidente da República a deixar passar este tempo precioso para convocação urgente de eleições está atribuir ao PSD e seus barões o maior balde de água fria, água essa por muitos anos se lavarão diariamente. Os mercados não são argumento, quando o que resta desta garotada é a ascensão de um dos intervenientes na garotice. Os mercados são investidores, gente que tem o seu suôr colocado em dinheiro. O medo ocasional com a subida de taxas de juros é uma permanência no discurso político frágil. Aguentar, sim, e muito, mas aguentar de cabeça levantada, sem perda pela única forma de chamada da Sociedade Civil: eleições. O medo não pode destruír a palavra da Sociedade Civil. Por fim, é tempo, o de Verão, de descanso, de reflexão do que somos como Nação, de geração de consensos necessários para a destruição do insustentável continuar a bem ou a mal. Esse consenso só pode ser feito pela guerra, pelo combate ideológico. Vejo poucos soldados. Que importa?, dirão, claro, a independência nacional acabou por falta de massa cinzenta na Política. Continuaremos como a Grécia, com meses de diferença, como nunca deixamos de o ser.



publicado por monge silésio às 16:48
 
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