Quinta-feira, 21 de Março de 2013
"Não entendo como a felicidade de aprender é partilhada por tão poucos  - essa felicidade que iluminou toda a minha vida, e fez dela uma existência sem rotina e sem tédio. Gostaria de perceber como é possível que o prazer da descoberta não desempenhe na vida da maior parte das pessoas o mesmo papel que nelas desempenha o prazer de amar ou de possuir (...)
Nenhuma sociedade havia dado, antes da nossa, instrução a todas as crianças e liberdade a todos os adultos. Esta dupla oportunidade, a crer no sonho social de muitos utopistas, deveria ter despertado o gosto pela iniciativa, o desejo pela investigação, uma curiosidade insaciável. Aconteceu, apenas, que esse sonho não se concretizou. O que vemos à nossa volta é uma passividade generalizada, um conformismo moldado pela pressão mediatico-publicitária. Todas as atitudes se tornam previsíveis, todas as reacções esperadas - os sinais de um condicionamento tristemente eficaz estão por toda a parte visíveis.
(...)
As sensações que experimentara no contacto com o mundo da ciência - a vertigem da ignorância, a angústia do erro, o esforço de aprender, o prazer da descoberta, o jogo da simplificação -, voltei a encontrá-las na abordagem de outros domínios, quando a ciência deixou de me interessar. À beira dos sessenta anos, continuo a sentir-me como sobre uma linha de partida, pronto para novas expedições. No dia em que a minha curiosidade esmorecer, nesse dia saberei que o meu tempo terá passado.
Essa felicidade que busco através da curiosidade não é, no entanto, uma extravagância nem, aliás, uma esquisitice da minha natureza. Há mais gente assim. Gente com pude partilhar uma espécie de cumplicidade gustativa e um pouco glutona. Há mais gente do que se pensa a cultivar o seu jardim secreto. Diferem todos uns dos outros, é certo; cada jardim tem as suas flores e os seus arbustos próprios, mas o que une todos os jardineiros é o amor com que se entregam à tarefa, unicamente interessados no prazer que ela lhes dá."

Referência completa: Closets, F. de (2002. Edição original: 1996). A felicidade de aprender e como ela é destruída. Lisboa, ed.Terramar, 9 a 13



publicado por monge silésio às 15:15
 
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