Segunda-feira, 07 de Janeiro de 2013

 

 

Pelas cinco horas duma tarde invernosa de Outubro, certo viajante entrou em Corgos a pé, depois de árdua jorna que o trouxera da aldeia de Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas do meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empedrado.

 

Tinha o seu quê de invulgar: o peso do tronco roliço arqueava-lhe as pernas, fazia-o bambolear como os patos: dava a impressão de aluir a cada passo. A respiração alterosa dificultava-lhe a marcha.

 

Mesmo assim, galgara duas léguas de barrancos, lama, invernia. Grave assunto o trouxera decerto, penando nos atalhos gandareses, por aquele tempo desabrido.

 

Havia sobre a vila, ao redor de todo o horizonte, um halo de luz branca que parecia o rebordo duma grande concha escurecendo gradualmente para o centro até se condensar num côncavo alto e tempestuoso. Ameaçava chover. O vento ia descoalhando as nuvens e abria caminho à grossa chuvada que a tarde esperava.

O homem cruzou a praça devagar, entrou no Café Atlântico e sacudiu as botas com cuidado no capacho de arame.

(…)

  “

Assim se inicia uma pequena grande história;

Miguel Real no seu “O Romance Português Contemporâneo 1950-2010” (ed. Caminho, 2012) afirma “…como a primeira página de Uma abelha na Chuva se evidencia (NOTA: fala-se do cânone realista), possivelmente, como a mais bela primeira página de um romance realista escrito em Portugal no séc. xx: a hora, o mês, a estação do ano, a vila, o modo como o espaço é percorrido, as consequências do tempo no aspeto da personagem, a descrição física e psíquica deste –tudo em mnos de 20 linhas, adensado pelo mistério da expectativa romanesca (“certo viajante”). É uma página esteticamente perfeita, tão perfeita que pode ser considerada simbolicamente como a síntese da totalidade do modo de escrita narrativa da primeira metade do século xx, segundo o enquadramento categorial clássico: a) existe uma realidade exterior clara (transparente) à consciência do autor e do leitor; b) existe um eu narrativo claro (transparente) à consciência do autor e do leitor; c) existe uma relação de homologia entre os espaços e os tempos exteriores e interiores do romance;”  



publicado por monge silésio às 21:05
 
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