Domingo, 11 de Novembro de 2012
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As ditas "autarquias locais" - redundância que diz tudo sobre os atropelos semânticos e conceptuais da tal Constituição feita sobre o joelho por duas centenas de homens e mulheres que não conheciam Portugal - estão em polvorosa e ameaçam com mobilizações e marchas sobre a capital. Durante anos, à medida que se iam manifestando os sintomas do carácter intrinsecamente deletério do regime, insistiu-se na aclamação do "poder autárquico", gabando-lhe as conquistas e proezas. Subitamente, há cerca de dez anos, descobriu-se que o regime começara precisamente a apodrecer a níveis pouco menores que a infâmia nesses pequenos mundos, amiúde dominados por gente predatória, criminosamente irresponsável, corruptora e corruptível. Valentim Loureiro, Avelino Ferreira Torres, Abílio Curto, Mesquita Machado, João Rocha, Luís Monterroso, Paulo Caldas, a inefável Felgueiras, Isaltino Morais, Luís Vilar, António Lobo, Júlio Santos, Judas e Irene Barata cobriram parangonas e esgotaram o reportório dos códigos em crimes, infracções, faltas e abusos que, de tão abracadabrantes, uns fazem sorrir, outros provocam iras. 


O "poder autárquico" não existe. Mal fizeram o boníssimo Mouzinho da Silveira e seus descendentes ao meter os dedos teóricos em construções humanas e orgânicas, substituindo-as por entidades administrativas sem gabarito e autenticidade territorial, social e económica. Antes, os Concelhos nutriam-se de foros, direitos e privilégios conquistados; eram complexíssimas entidades surgidas e crescidas do empirismo histórico. Nunca será demais reler Damião Peres, Gama Barros e Costa Lobo para tentar compreender o carácter genuinamente democrático desses antigos Concelhos. Depois, veio o administrativismo e, recentemente o pequeno banditismo. Onde antes havia uma elite local, hoje há o pato bravo, o chefe dos bombeiros, o madeireiro, o dono da loja de electrodomésticos, o presidente do futebol local ou o advogado que conhece todos os alçapões. Os munícipes regalaram-se com tanto pavilhão polivalente, tanto auditório, tanta puxada eléctrica, tanta estrada e tanto loteamento, esquecendo-se que tudo isso fazia a riqueza das potestades e das negociatas. Hoje, tanto Concelhos como juntas, estão falidas. Deram emprego a todos, pediram empréstimos, viram multiplicados por cinco e seis os orçamentos vindos dos cofres do Estado. A miragem autárquica transformou-se nisto, em pesadelo cansado e em oligarquia sem mérito. Que falta faz um quadro administrativo dirigente e profissionalizado, preparado, honesto, responsável, sujeito a avaliação, submetido a auditorias e inspecções. 

 

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publicado por monge silésio às 14:40
 
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